Plebiscito
Quinta-feira, 22 Novembro, 2007 de Alessandro
PLEBISCITO
Artur de Azevedo
A cena passa-se em 1890.
A família está toda reunida na sala de jantar. O senhor Rodrigues
palita os dentes, repimpado numa cadeira de balanço. Acabou de comer
como um abade. Dona Bernardina, sua esposa, está muito entretida a
limpar a gaiola de um canário belga. Os pequenos são dois, um menino
e uma menina. Ela distrai-se a olhar para o canário. Ele, encostado
à mesa, os pés cruzados, lê com muita atenção uma das nossas folhas
diárias. Silêncio, De repente, o menino levanta a cabeça e pergunta:
- Papai, que é plebiscito?
O senhor Rodrigues fecha os olhos imediatamente para fingir que dorme.
O pequeno insiste:
- Papai?
Pausa:
- Papai?
Dona Bernardina intervêm:
- Ó seu Rodrigues, Manduca está lhe chamando. Não durma depois do
jantar que lhe faz mal.
O senhor Rodrigues não tem remédio senão abrir os olhos.
- Que é? que desejam vocês?
- Eu queria que papai me dissesse o que é plebiscito?
- Ora essa, rapaz! Então tu vais fazer doze anos e não sabes ainda o
que é plebiscito?
- Se soubesse não perguntava.
O senhor Rodrigues volta-se para dona Bernardina, que continua muito
ocupada com a gaiola:
- Ó senhora, o pequeno não sabe o que é plebiscito!
- Não admira que ele não saiba, porque eu também não sei.
- Que me diz?! Pois a senhora não sabe o que é plebiscito?
- Nem eu, nem você; aqui em casa ninguém sabe o que é plebiscito.
- Ninguém, alto lá! Creio que tenho dado provas de não ser nenhum
ignorante!
- A sua cara não me engana. Você é muito prosa. Vamos: se sabe, diga o
que é plebiscito! Então? A gente está esperando! Diga!…
- A senhora o que quer é enfezar-me!
- Mas, homem de Deus, para que você não há de confessar que não sabe?
Não é nenhuma vergonha ignorar qualquer palavra. Já outro dia foi a
mesma coisa quando Manduca lhe perguntou o que era proletário. Você
falou, falou, e o menino ficou sem saber!
- Proletário, acudiu o senhor Rodrigues, é o cidadão pobre que vive do
trabalho mal remunerado.
- Sim, agora sabe porque foi ao dicionário; mas dou-lhe um doce, se
me disser o que é plebiscito sem arredar dessa cadeira!
- Que gostinho tem a senhora em tornar-me ridículo na presença destas
crianças?
- Oh! ridículo é você mesmo quem se faz. Seria tão simples dizer:
Não sei Manduca, não sei o que é plebiscito; vai buscar o dicionário,
meu filho.
O senhor Rodrigues ergue-se de um ímpeto e brada:
- Mas eu sei!
- Pois se sabe, diga!
- Não digo para me não humilhar diante de meus filhos! Não dou o
braço a torcer! Quero conservar a força moral que devo ter nesta
casa! Vá para o diabo!
E o senhor Rodrigues, exasperadíssimo, nervoso, deixa a sala de jantar
e vai para o seu quarto, batendo violentamente a porta. No quarto
havia o que ele mais precisava naquela ocasião: algumas gotas de água
de flor de laranja e um dicionário…
A menina toma a palavra:
- Coitado de papai! Zangou-se logo depois do jantar! Dizem que é tão
perigoso!
- Não fosse tolo, observa dona Bernardina, e confessasse francamente
que não sabia o que é plebiscito.
- Pois sim, acode Manduca, muito pesaroso por ter sido o causador
involuntário de toda aquela discussão: pois sim, mamãe, chame papai e
façam as pazes.
- Sim! sim! façam as pazes! diz a menina em tom meigo e suplicante.
Que tolice! duas pessoas que se estimam tanto zangarem-se por causa do
plebiscito!
Dona Bernardina dá um beijo na filha, e vai bater à porta do quarto:
- Seu Rodrigues, venha sentar-se: não vale a pena zangar-se por tão
pouco.
O negociante esperava a deixa. A porta abre-se imediatamente.
Ele entra, atravessa a sala e vai sentar-se na cadeira de balanço.
- É boa! brada o senhor Rodrigues depois de largo silêncio; é muito
boa! Eu! eu ignorar a significação da palavra plebiscito! Eu!…
A mulher e os filhos aproximam-se dele. O homem continua num tom
profundamente dogmático: - Plebiscito… E olha para todos os lados a
ver se há por ali mais alguém que possa aproveitar a lição.
- Plebiscito é uma lei decretada pelos povos romanos, estabelecido em
comícios.
- Ah! suspiram todos, aliviados.
- Uma lei romana, percebem? E querem introduzi-la no Brasil! É mais
um estrangeirismo!
(Contos fora de moda)