AS TRÊS VIRTUDES DE UM SÁBIO
Terça-feira, 22 Maio, 2007 de Alessandro
As Três Virtudes do Sábio
Gilberto Antônio Silva
Em meio a um mar de “gurus”, “sábios” e “mestres”, encontramos criaturas das mais variadas tendências, desde os autênticos “buscadores da verdade” até os picaretas em geral. Muitos são inocentes vítimas de seus próprios delírios enquanto outros se passam por mestres para angariar recursos para suprir suas necessidades, nem sempre muito louváveis. Essa matéria objetiva colocar em destaque três características dos sábios que podem auxiliar os praticantes a descobrirem possíveis enganos: sinceridade, simplicidade e bom humor.
Sinceridade
Esta é a primeira virtude de um autêntico sábio. Nenhuma pessoa pode dizer que possui sabedoria se não possuir uma enorme sinceridade (se afirmar o contrário, deve estar mentindo…). Essa é uma virtude que muitas vezes é fácil de verificar: basta observar o suposto sábio cuidadosamente e verificar se ele age em conformidade com o que diz. Conheço um “mestre” que não bebe nem cerveja na frente de seus alunos. É um exemplo de virtude. Já nos bastidores apronta cada uma que faria as orgias romanas parecerem festinhas de debutantes. Outro é especialista em falar de filosofia e da alta “espiritualidade” de sua arte, mas sempre que pode se desmancha em ofensas cabeludas contra seus colegas de profissão. Triste.
Ser sincero é mais do que uma virtude: é uma conseqüência da sabedoria. Todo aquele que atinge a sabedoria automaticamente se torna sincero. O que ele tem a esconder? Os outros escondem sua falta de confiança no que sabem, e o fato de não vivenciarem o que pregam prova isso. Mas o sábio nada tem a evitar, pois confia no que sabe. Por isso é um sábio…
Simplicidade
Todo aquele que atinge a verdadeira sabedoria se torna uma pessoa simples, pois a Verdade é simples. Se para um determinado indivíduo uma atividade deve exigir um grande número de rituais, cerimônias, hierarquias, trajes, leis, regulamentos, etc…, desconfie. Nas artes marciais, principalmente, esses penduricalhos estão disfarçados em “tradição”. Nem tudo o que lhe empurram como “tradicional” é assim de fato. Os Mestres de antigamente, respeitando-se os costumes de cada país, se importavam menos com a aparência e mais com o verdadeiro conhecimento. Hoje existem artes carregadas de pedantismo, mas que se dizem “tradicionais”. Lembre-se: quanto mais sábio o indivíduo e mais verdadeira a arte, mais simples será a sua prática diária.
A sabedoria costuma se apresentar em embalagens simples, porém possuem um conteúdo de altíssimo valor. Milarespa, considerado um dos grandes patriarcas do budismo tibetano, passou anos em uma caverna vestindo uma tanga e se alimentando apenas de sopa de urtiga. Hui Neng era um monge analfabeto que cuidava da cozinha de um mosteiro Zen. Certa vez propuseram um Koan (espécie de charada que não possui uma resolução lógica) que não tinha resposta para todos do templo e o afixaram na parede do corredor. Percebendo o burburinho, o cozinheiro pediu a alguém que lesse o Koan para ele e o resolveu imediatamente! Passando por diversas provas, Hui Neng foi reconhecido como um grande sábio e proclamado 6º patriarca do Zen.
Da simplicidade também desponta outra virtude que costuma andar junto a ela: a humildade. Este é um traço bastante marcante do verdadeiro sábio. Humildade aqui não significa que o sábio vá se esconder em um buraco. Pelo contrário, ele pode até estar em projeção num dado momento e permanecer humilde. Humildade significa, em nosso contexto, a ausência da busca pela fama e ausência da vontade de aparecer. Muitas vezes o sábio pode dizer “Eu sou sábio” ou “Eu sou o maior sábio” e ainda assim estar sendo humilde, pois ELE É REALMENTE ESSAS COISAS (e mais ainda, sincero). Muitos de nós pensam que o humilde é aquele que se coloca sempre atrás dos outros, que não aparece nunca e foge da fama para ficar em um eremitério nas montanhas (ou em uma academia “boca-de-porco” perdida nas profundezas da periferia de uma grande cidade…). Tal imagem é extremamente artificial e não condiz com a realidade. O Mestre Sokaku Takeda, patriarca do Daito-Ryu Aikijutsu, sempre andava atrás dos outros. Ao passar por uma porta, pedia a todos que atravessassem na sua frente e sempre seguia por último. Humildade? Não. Mestre Takeda estava se prevenindo de um ataque pelas costas! Esses falsos conceitos de humildade podem atrapalhar a identificação do verdadeiro sábio. Humildade é, na verdade, simplicidade de espírito.
Bom Humor
Chegamos finalmente ao verdadeiro diferencial do sábio: bom humor! A sinceridade e a simplicidade podem enganar mas o bom humor não. Aquele que se diz sábio mas vive de cara amarrada e sério não sabe o diz. Você já viu uma imagem de Buda em que ele esteja sério? Tirando os budas japoneses, normalmente apresentados em meditação, eles estão sempre sorridentes e descontraídos. Os mestres taoístas também são retratos vivos desse bom humor.
As imagens dos Imortais Taoístas sempre mostram indivíduos alegres e soltos, rindo e brincando, geralmente em festas. Dizem os bons livros que todo aquele que consegue compreender o verdadeiro Tao solta uma gargalhada nesse instante. O bom humor também é muito valorizado no Zen. Conta-se que um discípulo procurou um Mestre para que este lhe passasse mais ensinamentos. O Mestre se limitou a enunciar um Koan e pedir uma resposta (método comum no ensino Zen-budista). O discípulo soltou uma sonora gargalhada e o Mestre, sorridente, aprovou a resposta!
A seriedade excessiva muitas vezes tem a intenção de passar uma falsa idéia de veracidade a um mestre ou sistema. Nós ocidentais nos acostumamos com a idéia de que para algo ser verdadeiro e bem feito ele deve ser feito com seriedade. Isso gerou muitos adultos infelizes, pois brincadeira é “coisa de criança”. Nada mais longe da realidade. Brincadeiras e bom humor são elementos indispensáveis à saúde e bem-estar das pessoas. Já é matéria médica comprovada que o riso é extremamente benéfico à saúde, inclusive acelerando curas. Li certa vez sobre um médico que tratava seus pacientes com filmes dos irmãos Marx.
Mas como dizia Buda: “siga sempre o caminho do meio”. O bom humor deve ser espontâneo e colocado em sua hora e lugar. Brincadeira em excesso ou de mau gosto é ainda pior do que a seriedade excessiva!
Nestes muitos anos de estudo tive a rara oportunidade de travar conhecimento com muitos grandes Mestres de artes marciais, que se revelaram pessoas de ótimo humor. Por exemplo o Mestre Terada, praticante mais graduado do mundo no Yoshinkan Aikidô, que esteve no Brasil este ano. Cada demonstração e correção dele era recheada de brincadeiras e risos. Quem diria que aquele sorridente senhor de 80 anos foi aluno direto do Grande Mestre Ueshiba e colega do Grande Mestre Gozo Shioda, sendo o atual responsável pelo Yoshinkan mundial…
Muitos “mestres” preconizam a seriedade absoluta porque, sem ela, eles acreditam não existir a Verdade. Grande engano. A Verdade existe mais verdadeiramente ainda atrás de um sorriso ou de uma brincadeira do que em todas as caras amarradas do universo!
Pode ter certeza: se um “sábio” não tem bom humor, ele com certeza não tem sabedoria também.
Espero que você medite e estude bem essas características para poder conservar incólumes o seu discernimento, sua vontade de progredir e sua carteira. Eu, por meu lado, continuo buscando a sabedoria. Mas com um holofote atômico, os olhos arregalados e um pé atrás…
O Prof. Gilberto Antonio Silva ( gilberto@longevidade.net )é Acupuntor, Parapsicólogo e Terapeuta com 28 anos de estudos em filosofia e cultura oriental. Como Taoísta, dedica-se a divulgar essa filosofia multi-milenar. É diretor responsável do Boletim Saúde & Longevidade e do portal Longevidade.Net. Ministra cursos e seminários relacionados à filosofia e cultura oriental em todo o Brasil